domingo, 15 de março de 2015

INTERESTELAR vs GRAVIDADE

INTERESTELAR vs GRAVIDADE
CHRISTOPHER NOLAN vs ALFONSO CUARÓN
FÍSICA TEÓRICA vs FÍSICA APLICADA

(ATENÇÃO = Contém Spoilers!!)

Ok. Alguns irão dizer que não há como comparar esses dois filmes. Vou comparar assim mesmo, afinal tudo pode ser comparado, até um pedaço de pão e outro de pedra (um é comestível, o outro não – pronto, feita a comparação).
Bem, partimos do pressuposto que ambos são obras cinematográficas. Obras de ficção científica. FICÇÃO. Quero dizer com isso que não precisam estar totalmente ligadas a realidade, senão não seriam filmes e sim documentários.
A comparação a que me proponho é no campo científico, que é o que mais me atrai nesses filmes.
Então vamos lá.
Começamos por dizer que Interestelar (Interstellar) é um filme que tem uma proposta bem diferente de Gravidade (Gravity). Enquanto que Alfonso Cuarón, diretor de Gravidade, se preocupou em fidelizar ao máximo as regras científicas envolvendo a física aplicada – claro, mantendo o filme “assistível” e que pudesse gerar lucro, afinal Hollywood não sobrevive sem as bilheterias -, Christopher Nolan, diretor de Interestelar, se preocupou bem mais com a física teórica, que é bem menos conhecida pelo público em geral. Por óbvio que a física aplicada é bem mais aceitável pelas pessoas, afinal está ao nosso redor, pode ser sentida, tocada, testada. Ao passo que, a física teórica trata de teorias abstratas, não observáveis, não palpáveis. Gravidade retratou com extrema fidelidade os aparatos e procedimentos envolvidos na exploração da órbita baixa terrestre (mais uma vez lembrando os limites “comerciais” envolvidos). Até astronautas da NASA teceram comentários positivos a respeito, também com as ressalvas de praxe, claro. Já Interestelar abordou esse outro lado da física que é bem menos conhecido pelo público e que é também bem mais exótico. Achei muito legal essa proposta. O que não me agradou foi que, ao escolher a física teórica para nortear a estória (ou história, se preferir), houve um total descaso com a física aplicada. Sim, total descaso. Todos sabem que esses diretores de Hollywood fazem suas pesquisas e consultorias no momento da produção de seus longas. Hoje, inclusive, é moda anunciar quais cientistas estão envolvidos na produção das obras, ajudando na fidelização com a ciência e dando um pouco mais de marketing ao filme. Fico imaginando os físicos teóricos envolvidos com Christopher Nolan, delirando em êxtase ao ver nas telas as suas teorias tomando forma, tomando vida. Mas, antes de tudo, um físico teórico é um físico e todo físico deve fidelidade às leis da física, inclusive da aplicada. O que me parece é que a consultoria científica do filme de Nolan se restringiu ao campo teórico, o que levou a um desastre estrondoso nas cenas onde fica clara a não observação da física aplicada. Senão vejamos: Na estória, a equipe responsável pela salvação da espécie – composta pelos quatro cientistas, dentre eles o protagonista – deixa a Terra em uma viagem que tem como destino um Buraco de Minhoca próximo a Saturno. Até aí tudo bem, segue fiel a proposta do filme de retratar a física teórica. Também foram fiéis ao retratar a forma como a equipe saiu da Terra, em um foguete gigantesco estilo NASA, os quais já são de conhecimento geral. Bem, para aqueles que não sabem, o motivo pelo qual se usam esses gigantescos foguetes para sair rumo ao espaço é porque é necessário vencer a força da gravidade para que se possa deixar a Terra. Para tanto, se faz necessário uma grande quantidade de combustível, combustível este contido nos enormes tanques internos dos foguetes (sendo bem superficial na explicação). Isso é bem retratado no filme de Nolan, na cena de partida para o espaço. Mais uma vez, até aí tudo bem. Daí, mais pra frente na estória, visitando um dos planetas escolhidos (aquele primeiro, com as ondas gigantes), a coisa começa a desandar geral. Pois bem, lembram que os cientistas da missão comentam que naquele planeta a gravidade é 130% a da Terra?? Foi exatamente essa expressão que usaram. Isso significa, por exemplo, que uma pessoa pesando 100Kg aqui na Terra, pesaria 130Kg por lá. Significa, por exemplo, que um veículo espacial que pesasse 10t aqui na Terra, pesaria 13t por lá. Para tal, aquele planeta precisaria ser maior que a Terra ou, de alguma forma, ter um núcleo mais denso que o da Terra (não precisaram entrar nesse mérito e explicar, sem problema). Mas onde estou querendo chegar com toda essa ladainha?? Simples como dois mais dois. Se, para se desgarrarem da gravidade da Terra necessitaram de toneladas de combustível em um gigantesco foguete, porque raios ao decolarem e partirem da atmosfera do tal planeta das ondas (onde a gravidade é 130% a da Terra, lembram?) eles simplesmente deram a partida naquele “estiloso DeLorean” e saíram voando como em Star Wars?!?! As regras da física aplicada se aplicam em qualquer lugar do universo (ok, excetuando alguns locais citados na física teórica, mas que não incluem um planeta como o retratado). Não é que o filme tenha que ser real. Mas tem que ser coerente. Ninguém reclamaria se tivessem inventado uma nova forma de propulsão para exibir no filme, afinal, na estória, passaram-se anos desde que a Terra começou a passar por dificuldades e começou a pensar em buscar outra morada. A estória introduziu até aqueles robôs esquisitões altamente desenvolvidos tecnológica e socialmente, porque não introduzir uma nova tecnologia de propulsão?! Assim a usariam para partir da Terra rumo ao espaço assim como para partir do planeta das ondas. CO-E-RÊN-CIA. Nem preciso dizer que o mesmo se repetiu no outro planeta, aquele do gelo, onde encontram o Matt Damon pirado.
Outra coisinha que muitos podem ter deixado passar: Na estória, o planeta, a sociedade, está passando por dificuldades no cultivo. Plantas morrendo uma a uma. A humanidade está ficando sem opções para manter a alimentação. A fome está chegando. Mas... mas... eis que aparece uma cena em que, ao maior estilo americano de ser, o protagonista está bebendo uma cerveja!! Isso mesmo, uma “gelada”, uma “ceva”!! kkkkkkkkk... (desculpem, não resisti). Poxa, já viram a quantidade de cereais que compõem a receita de preparação da cerveja?? Caramba, eles estavam ficando sem opções de plantio!! Fala sério...
Bem, essas incoerências que citei não são taxativas, eis que aconteceram diversas outras e de menor visibilidade, mas que nem por isso deveriam ter sido ignoradas. A inércia em micro gravidade é um exemplo e ficou bem ruim mesmo. Em Gravidade isso ficou bem mais perfeitamente relatado, principalmente nas cenas de manobra da nave Soyuz, o que é um contrassenso comparado com aquela cena em que a Sandra Bullock deixa o George Clooney escapar rumo à morte.
Então... (longo suspiro) Não estou dizendo que o filme foi ruim. Pelo contrário, gostei muito mesmo. Mas o diretor poderia ter tomado mais cuidado com o “pano de fundo”, eis que o foco principal era a física teórica. Principalmente porque já havia no mercado um filme que retratou com maestria a física aplicada em um ambiente de exploração espacial. Sendo assim, o público já estava com a crítica pré-pronta. Isso era óbvio.
Então é isso. Cansei de escrever... e outra, não ganho a vida fazendo isso, logo deixo a verdadeira crítica àqueles que sabem fazer isso (e ganham para isso, rsrs).

4 comentários:

@Vinealves disse...

Até concordo com a parte do problema da propulsão, mas em relação a cerveja.No Brasil e nos Estados Unidos é muito comum usar milho, para baratear o custo da cerveja, inclusive, a maioria das empresas aqui na terra Tupiniquim fazem isso, inclusive, a legislação prevê que podem ser usados até uns 40% de milho na composição se não me engano. Se já fazem isso no mundo "não-apocalíptico" imagine no contexto do filme. Mas realmente muito boa sua crítica em relação ao problema da propulsão, eu não tinha reparado nele! kkkk

Anônimo disse...

Talvez a nave no outro planeta n precisasse de tal propulsao por ter uma massa consideravelmente menor q a da estação, na qual eles partiram da terra. Afinal, ela é apenas uma pequena parte da nave principal, e poderia ter tecnologia suficiente para fazer aquele voo

@Vinealves disse...

Mas parece que quando vão sair da terra já tinham mandado a endurance. Faz tempo que vi, então não lembro mesmo...

Unknown disse...

Eu não sei o que você pensa, mas eu amo os filmes. São muito interessantes, podemos encontrar de diferentes gêneros. De forma interessante, o criador optou por inserir uma cena de abertura com personagens novos, o que acaba sendo um choque para o espectador, que esperava reencontrar de cara as queridas crianças. Desde que vi o elenco de Beasts Interestelar imaginei que seria uma grande produção, já que tem a participação de atores muito reconhecidos, Pessoalmente eu irei ver por causo do ator Matthew McConaughey, um ator muito comprometido (pode Ver Filme de Ação é uma ótima opção para entreter), além disso, acho que ele é muito bonito e de bom estilo.