INTERESTELAR vs GRAVIDADE
CHRISTOPHER NOLAN vs ALFONSO CUARÓN
FÍSICA TEÓRICA vs FÍSICA APLICADA
(ATENÇÃO = Contém Spoilers!!)
Ok. Alguns irão dizer que não há como comparar esses dois filmes. Vou
comparar assim mesmo, afinal tudo pode ser comparado, até um pedaço de
pão e outro de pedra (um é comestível, o outro não – pronto, feita a
comparação).
Bem, partimos do pressuposto que ambos são obras
cinematográficas. Obras de ficção científica. FICÇÃO. Quero dizer com
isso que não precisam estar totalmente ligadas a realidade, senão não
seriam filmes e sim documentários.
A comparação a que me proponho é no campo científico, que é o que mais me atrai nesses filmes.
Então vamos lá.
Começamos por dizer que Interestelar (Interstellar) é um filme que tem
uma proposta bem diferente de Gravidade (Gravity). Enquanto que Alfonso
Cuarón, diretor de Gravidade, se preocupou em fidelizar ao máximo as
regras científicas envolvendo a física aplicada – claro, mantendo o
filme “assistível” e que pudesse gerar lucro, afinal Hollywood não
sobrevive sem as bilheterias -, Christopher Nolan, diretor de
Interestelar, se preocupou bem mais com a física teórica, que é bem
menos conhecida pelo público em geral. Por óbvio que a física aplicada é
bem mais aceitável pelas pessoas, afinal está ao nosso redor, pode ser
sentida, tocada, testada. Ao passo que, a física teórica trata de
teorias abstratas, não observáveis, não palpáveis. Gravidade retratou
com extrema fidelidade os aparatos e procedimentos envolvidos na
exploração da órbita baixa terrestre (mais uma vez lembrando os limites
“comerciais” envolvidos). Até astronautas da NASA teceram comentários
positivos a respeito, também com as ressalvas de praxe, claro. Já
Interestelar abordou esse outro lado da física que é bem menos conhecido
pelo público e que é também bem mais exótico. Achei muito legal essa
proposta. O que não me agradou foi que, ao escolher a física teórica
para nortear a estória (ou história, se preferir), houve um total
descaso com a física aplicada. Sim, total descaso. Todos sabem que esses
diretores de Hollywood fazem suas pesquisas e consultorias no momento
da produção de seus longas. Hoje, inclusive, é moda anunciar quais
cientistas estão envolvidos na produção das obras, ajudando na
fidelização com a ciência e dando um pouco mais de marketing ao filme.
Fico imaginando os físicos teóricos envolvidos com Christopher Nolan,
delirando em êxtase ao ver nas telas as suas teorias tomando forma,
tomando vida. Mas, antes de tudo, um físico teórico é um físico e todo
físico deve fidelidade às leis da física, inclusive da aplicada. O que
me parece é que a consultoria científica do filme de Nolan se restringiu
ao campo teórico, o que levou a um desastre estrondoso nas cenas onde
fica clara a não observação da física aplicada. Senão vejamos: Na
estória, a equipe responsável pela salvação da espécie – composta pelos
quatro cientistas, dentre eles o protagonista – deixa a Terra em uma
viagem que tem como destino um Buraco de Minhoca próximo a Saturno. Até
aí tudo bem, segue fiel a proposta do filme de retratar a física
teórica. Também foram fiéis ao retratar a forma como a equipe saiu da
Terra, em um foguete gigantesco estilo NASA, os quais já são de
conhecimento geral. Bem, para aqueles que não sabem, o motivo pelo qual
se usam esses gigantescos foguetes para sair rumo ao espaço é porque é
necessário vencer a força da gravidade para que se possa deixar a Terra.
Para tanto, se faz necessário uma grande quantidade de combustível,
combustível este contido nos enormes tanques internos dos foguetes
(sendo bem superficial na explicação). Isso é bem retratado no filme de
Nolan, na cena de partida para o espaço. Mais uma vez, até aí tudo bem.
Daí, mais pra frente na estória, visitando um dos planetas escolhidos
(aquele primeiro, com as ondas gigantes), a coisa começa a desandar
geral. Pois bem, lembram que os cientistas da missão comentam que
naquele planeta a gravidade é 130% a da Terra?? Foi exatamente essa
expressão que usaram. Isso significa, por exemplo, que uma pessoa
pesando 100Kg aqui na Terra, pesaria 130Kg por lá. Significa, por
exemplo, que um veículo espacial que pesasse 10t aqui na Terra, pesaria
13t por lá. Para tal, aquele planeta precisaria ser maior que a Terra
ou, de alguma forma, ter um núcleo mais denso que o da Terra (não
precisaram entrar nesse mérito e explicar, sem problema). Mas onde estou
querendo chegar com toda essa ladainha?? Simples como dois mais dois.
Se, para se desgarrarem da gravidade da Terra necessitaram de toneladas
de combustível em um gigantesco foguete, porque raios ao decolarem e
partirem da atmosfera do tal planeta das ondas (onde a gravidade é 130% a
da Terra, lembram?) eles simplesmente deram a partida naquele “estiloso
DeLorean” e saíram voando como em Star Wars?!?! As regras da física
aplicada se aplicam em qualquer lugar do universo (ok, excetuando alguns
locais citados na física teórica, mas que não incluem um planeta como o
retratado). Não é que o filme tenha que ser real. Mas tem que ser
coerente. Ninguém reclamaria se tivessem inventado uma nova forma de
propulsão para exibir no filme, afinal, na estória, passaram-se anos
desde que a Terra começou a passar por dificuldades e começou a pensar
em buscar outra morada. A estória introduziu até aqueles robôs
esquisitões altamente desenvolvidos tecnológica e socialmente, porque
não introduzir uma nova tecnologia de propulsão?! Assim a usariam para
partir da Terra rumo ao espaço assim como para partir do planeta das
ondas. CO-E-RÊN-CIA. Nem preciso dizer que o mesmo se repetiu no outro
planeta, aquele do gelo, onde encontram o Matt Damon pirado.
Outra
coisinha que muitos podem ter deixado passar: Na estória, o planeta, a
sociedade, está passando por dificuldades no cultivo. Plantas morrendo
uma a uma. A humanidade está ficando sem opções para manter a
alimentação. A fome está chegando. Mas... mas... eis que aparece uma
cena em que, ao maior estilo americano de ser, o protagonista está
bebendo uma cerveja!! Isso mesmo, uma “gelada”, uma “ceva”!!
kkkkkkkkk... (desculpem, não resisti). Poxa, já viram a quantidade de
cereais que compõem a receita de preparação da cerveja?? Caramba, eles
estavam ficando sem opções de plantio!! Fala sério...
Bem, essas
incoerências que citei não são taxativas, eis que aconteceram diversas
outras e de menor visibilidade, mas que nem por isso deveriam ter sido
ignoradas. A inércia em micro gravidade é um exemplo e ficou bem ruim
mesmo. Em Gravidade isso ficou bem mais perfeitamente relatado,
principalmente nas cenas de manobra da nave Soyuz, o que é um
contrassenso comparado com aquela cena em que a Sandra Bullock deixa o
George Clooney escapar rumo à morte.
Então... (longo suspiro) Não
estou dizendo que o filme foi ruim. Pelo contrário, gostei muito mesmo.
Mas o diretor poderia ter tomado mais cuidado com o “pano de fundo”,
eis que o foco principal era a física teórica. Principalmente porque já
havia no mercado um filme que retratou com maestria a física aplicada em
um ambiente de exploração espacial. Sendo assim, o público já estava
com a crítica pré-pronta. Isso era óbvio.
Então é isso. Cansei de
escrever... e outra, não ganho a vida fazendo isso, logo deixo a
verdadeira crítica àqueles que sabem fazer isso (e ganham para isso,
rsrs).
domingo, 15 de março de 2015
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4 comentários:
Até concordo com a parte do problema da propulsão, mas em relação a cerveja.No Brasil e nos Estados Unidos é muito comum usar milho, para baratear o custo da cerveja, inclusive, a maioria das empresas aqui na terra Tupiniquim fazem isso, inclusive, a legislação prevê que podem ser usados até uns 40% de milho na composição se não me engano. Se já fazem isso no mundo "não-apocalíptico" imagine no contexto do filme. Mas realmente muito boa sua crítica em relação ao problema da propulsão, eu não tinha reparado nele! kkkk
Talvez a nave no outro planeta n precisasse de tal propulsao por ter uma massa consideravelmente menor q a da estação, na qual eles partiram da terra. Afinal, ela é apenas uma pequena parte da nave principal, e poderia ter tecnologia suficiente para fazer aquele voo
Mas parece que quando vão sair da terra já tinham mandado a endurance. Faz tempo que vi, então não lembro mesmo...
Eu não sei o que você pensa, mas eu amo os filmes. São muito interessantes, podemos encontrar de diferentes gêneros. De forma interessante, o criador optou por inserir uma cena de abertura com personagens novos, o que acaba sendo um choque para o espectador, que esperava reencontrar de cara as queridas crianças. Desde que vi o elenco de Beasts Interestelar imaginei que seria uma grande produção, já que tem a participação de atores muito reconhecidos, Pessoalmente eu irei ver por causo do ator Matthew McConaughey, um ator muito comprometido (pode Ver Filme de Ação é uma ótima opção para entreter), além disso, acho que ele é muito bonito e de bom estilo.
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